16.9.2008
Análise Crítica do Prof Marcelo Caetano sobre a prova de Raciocínio Analítico da Edição de Setembro de 2008 do Teste ANPAD
O principal objetivo das provas de raciocínio analítico é aferir, do candidato, a sua capacidade de aplicar julgamento crítico sobre métodos de pensamento científico. Como o candidato ao teste ANPAD está galgando a uma vaga em pós-graduações de elevado nível nacional, é necessário que ele comprove possuir, portanto, o aparato técnico suficiente para não incorrer, quando da feitura de seus trabalhos acadêmicos, em erros atinentes ao senso comum – e infensos ao espírito científico -, os sofismas: apelo à ignorância, petição de princípio, confusão entre causa e conseqüência, confusão entre subordinação e coordenação de fatos, estatística de números pequenos, compreensão errônea da natureza da estatística, curto prazo versus longo prazo, non sequitur, falsa analogia e probabilidade, exclusão do meio-termo, declive escorregadio, espantalho, meia verdade, palavras equívocas e outras falácias.
Já que a construção do método expositivo-dissertativo acadêmico se dá, necessariamente, sem a interferência dessas falhas argumentativas, é natural que se queira saber se o postulante à vaga de pós-graduando tem domínio sobre este léxico científico, a fim de não incorrer em erros que ferem sobremaneira a metodologia de construção cartesiana e aristotélica, que, mais do que as outras, norteia os alicerces do pensamento na ciência ocidental, desde há muito, sendo, mais recentemente, também significativo contribuinte na arquitetura da ciência oriental (China, Japão, Índia etc.).
A Edição de Setembro de 2008 enfatizou – no que se diferencia um pouco das mais recentes edições – o confronto, dentro de uma mesma questão, de pontos de vista discordantes, com freqüência antitéticos, a fim de que se percebam os eventuais pontos críticos mais notórios num ou noutro argumento (questão 1 e questão 4).
Também apresentou como novidade o confronto mais ostensivo com a falibilidade de algum argumento específico (questão 4 e questão 11).
Afora tais casos particulares, o restante da prova defluiu dentro do que sempre se mostrou: 1) percepção, por parte do candidato, do que é a conclusão de um texto, vendo quais seriam os pontos extrínsecos que o fortalecessem ou enfraquecessem; 2) o que, a partir da leitura de um dado texto, pode ser admitido ou inferido dele; 3) qual conclusão seria mais adequada à consecução de um texto como um todo; 4) como esclarecer-se uma aparente contradição; 5) análise de casos concretos com pesquisa de possíveis soluções e/ou explicações para resultados efetivos.
Esse foi, a meu ver, o perfil da prova que acaba de ocorrer: visando à mesma premissa maior de que um acadêmico não pode prescindir do citado Modus Sciendi, combativo às falhas de raciocínio e demonstração empíricas e/ou idealistas, o Teste apresentou questões que conferem o preparo do candidato no que tange à percepção desse tipo de falha, com o objetivo final, é claro, de que ele mesmo, ao se tornar um Mestre, Doutor ou Pós-Doutor, não venha a incorrer em tais lacunas, nem deixe que esses mesmos hiatos passem despercebidos quando tiver discentes sob sua orientação, ou quando estiver nas bancas de aprovação de teses futuras.
Observo, por fim, que faz parte da carpintaria das provas o contraste entre a visão precipuamente científica, já devidamente explicitada acima, e a presença das instituições sociais de maior envergadura, como a família, o trabalho, a Igreja, a Universidade, a Escola, o Estado, o poder, as relações entre gêneros (masculino e feminino), o intercurso de conhecimentos, as transições econômico-políticas, os valores éticos e morais em face de novas e antigas realidades tecnológicas, a própria tecnologia e assim por diante.
POR
MARCELO MORAES CAETANO
